quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Estas quadras festivas, em que o mundo desacelera, tornam-se especialmente propícias à reflexão e à percepção dos pequenos nadas que são tudo, ou seja, tocam na raiz originária do meu blog.
O retorno às raízes, à família, à percepção da essencialidade dos sentimentos, ainda que imersos numa sociedade vendida ao valor material que o capitalismo incrementou e que o egoísmo humano adoptou como forma de afecto. 
De facto, nesta época festiva, não consigo deixar de reparar em pequenas coisas, minúsculas minudências reveladoras de problemas profundos. Pois é, o optimismo idealista desta época nunca deixará de me fascinar mas, como em tudo, quando há muito de belo haverá, em igual medida, muito de obscuro. 
O Natal é assim: saída das trevas e retorno da luz. Todavia, as trevas de que vos falo não são mais do que os meandros do egoísmo humano. Do querer ter por ter, para ser mais, para se sentir melhor. O descuramento do outro, enquanto semelhante. A falta de sensibilidade para com o próximo. A falta de percepção de que a maioria de nós é sortudo, privilegiado, que a vida não foi bondosa com toda a gente. O não descuramento do orgulho como forma de enaltecimento próprio. A teimosia como forma demonstrativa de uma 'razão', que pouco tem de verdadeiro. A falta de paciência como ápice de um egoísmo intolerante.
Enfim, tristemente, a quebra da solidariedade interpessoal está notar-se até no Natal, que era (aparentemente) a última réstia de esperança. E o egoísmo cresce a olhos vistos chegando, inclusivamente, a tocar o despresível.
Hoje em dia, as pessoas têm medo da morte, não pela pessoa que morre, em si mesma, mas pela dor que lhes causa a sua perda; são caridosas, não pela bondade de 'dar', mas pela projecção social dessa dádiva; são cooperantes, porque sabem que é bem visto e que terão um retorno ou uma pedra argumentativa, a posteriori; não sabem distinguir o que é importante do que é acessório; não demonstram o que sentem e dizem qualquer coisa que lhes apeteça dizer, mesmo que isso magoe, premeditadamente, alguém; criam problemas com o mero objectivo de chamar a atenção das pessoas mais próximas. Arriscaria dizer que a maioria de todos anda embebido em discussões mesquinhas. Não vê quaisquer essências, não atinge qualquer subtileza, porque acham que a vida deve girar à sua volta. Isso mesmo: acham que nada que existe no mundo é mais importante do que o seu umbigo. Não conseguem sair de uma visãozinha redutora do mundo e da vida. Não percebem que existem problemas além dos seus. Que existem histórias muito mais dignas de dramas do que uma pequena implicância ou sentimento de desilusão. Não sabem ouvir, apenas querem falar. Falam de espectros de emoções recalcadas, de dores mal resolvidas ou autopromovem-se de qualquer modo. Não querem compreender. Não demonstram interesse em perceber. Acham que os outros são apenas isso, os outros. Não conseguem perceber qualquer metafísica, qualquer bondade pura, qualquer manifestação de luz própria desprovida de estratégias ou de qualquer tipo de calculismo. Canalizam a razão para a obscuridade, para a obtenção de benefícios, para chegar aonde seria suposto chegar, em termos sociais. 
Enfim, a maioria de todos anda constantemente perdida em primitivismos. Coisas que se vão desconsiderando e relativizando, numa sociedade acelerada em que o tempo é escasso e em que tudo é para ontem. 
Todavia, a falta de sensibilidade choca-me especialmente no Natal. E quando falo em sensibilidade não quero tocar em visões cor-de-rosa da realidade: nesse falso amor que todos apregoam. Não. Quero falar-vos da sensibilidade para com os outros, para com as suas fragilidades e para com os seus pontos fracos. Sim, toda a gente tem pontos fracos e ninguém é melhor por percebê-los e usufruir malevolamente deles, apenas para se sentir no topo de um pódio que só existe na sua cabeça. 
A vida é muito mais do que aquilo que irrealisticamente esses defensores do falso amor apregoam. Os pequenos nadas passam quase invisíveis e eu tenho muita pena de que a grande maioria das pessoas tenha de passar por situações-limite para se aperceberem deles, para lhes dar valor, para os sentirem (ainda que, até aí, o egoísmo esteja presente). E mais. Tenho muita pena porque isso, normalmente, ocorre tarde demais.
E, no entanto, continuo optimista. Esperançosa de que um dia possa ver pessoas mais conscientes, construirem uma sociedade melhor em que existam menos desigualdades, menos obscuridades, mais felicidade e, claro, mais sensibilidade para com o próximo.

E agora recordei esta reflexão de Pessoa, do Livro do Desassossego:

"Quanto mais alta a sensibilidade, e mais subtil a capacidade de sentir, tanto mais absurdamente vibra e estremece com as pequenas coisas. É preciso uma prodigiosa inteligência para ter angústia ante um dia escuro. A humanidade, que é pouco sensível, não se angustia com o tempo, porque faz sempre tempo; não sente a chuva senão quando lhe cai em cima."

Maria Vaz


terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Utopias concretas que se aproximam
ou oásis que desertos viram partir.
Alarmes de um silêncio quase noctívago,
alimentado como que por magia ou telepatia.
Meros buscadores da supremacia essencial; ou
Nefelibatas de uma vida incandescente
que se sujeita a ventanias de imprevisibilidade.
Seres errantes que se encontrarão
devido ao erro que deram, precisamente, 
porque não queriam errar. 

Maria Vaz







segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Viver a equacionar o infinito,
o impossível,
o impensável:
eis o meu lema.

Velejar ao sabor
de um vento
que revolve todas as certezas,
para perceber a sua raiz.

Um querer crer
não sei bem em quê:
numa inteligência que tudo liga,
que tudo ordena.

Uma busca insaciável
pela verdade...
O que quer que ela seja.
Ou o mais próximo dela,
que talvez passe pelo sentir.

Um terrível impulso
para a precognição.

Para quê respeitar formas
se elas não passam de imposições?
Para quê viver alienado de substâncias
se são a única coisa que temos sem saber?

Fica somente o subtil.
O essencial.
A matéria apenas permite usufrutos
e qualquer propriedade é mera ilusão.

Uma inquietude,
de origem incógnita,
que teima em levar-me
ao que está oculto em aparências.

Uma busca...
não sei bem de quê:
fome e sede de algo
que parece estar
muito além...

A irritação da mentira
sobre uma verdade que se perdeu...
E a desconfiança
das verdades que se alcançam.

A tentativa,
sempre a vã tentativa,
de alcançar algo que cale o pensamento,
que acabe com o dualismo original.

A inquietação visível
com o contentamento descontente,
desses que nasceram para viver sem pensar.
Porque pensar é muito mais do que repetir:
repetir é acreditar em tudo;
É não sentir nada;
É viver com alergia ao verosímil.

A irritação com a desvirtuação
dos sentimentos,
aliada à banalização das palavras.

A revolta
com o fingimento da compreensão.

O repúdio pela
indiferença ao sentimento alheio
e pela ilusão daqueles que
pensam que sentem
mas que não sabem o que é sentir.

A indiferença
relativa aos que se acham
insubstituíveis;
face à sua magnânima mesquinhez.

A impaciência
com implicações
que tocam o desprezível.

A incompreensão.

Entre a mentira e a verdade.
A beleza e a obscuridade.
Entre o meu 'eu' e o mundo.
Muito longe daqui...

Maria Vaz






sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

ASTROLOGIA: uma ciência?

A astrologia é um mundo em que gosto de me perder. 
Nela encontro explicações que o rigor do 'experiencialismo' (material), do método científico, afastam. Nela vislumbro respostas para coisas aparentemente inexplicáveis, porque detentoras de uma certa dose metafísica. Nela parecem residir mistérios que a ciência, enquanto construção teórica, ainda não conseguiu alcançar. 
É de notar que, quando falo de Astrologia, falo de uma ciência, porque, afinal, muito além da significância que lhe atribuímos por senso comum, falar de ciência é falar de conhecimento (da raiz latina scientia). E a astrologia é um verdadeiro sistema de conhecimento. 
As mentes mais cépticas e mais vendidas a preconceitos sociais (que rondam o ridículo por falta de fundamentação ou por indagações que tocam a questão da falta de 'padronização' ou  de coerência), contestarão. 
Essas mentes, quando muito, argumentarão tratar-se, no máximo, uma pseudo-ciência, devido ao facto de não acreditarem estar perante um verdadeiro conhecimento sistemático. 
Bem, respeito o argumento, todavia, sou levada a mostrar-lhes que a Astrologia é, ao contrário daquilo em que acreditam (ou queiram acreditar), um verdadeiro sistema. Contudo, é um sistema não linear. É complexo. A sua racionalidade é teórico-prática e extremamente analógica. Até porque, atendendo à realidade prática, se torna impossível padronizar totalmente pessoas, pelo simples facto de cada um ser único e dotado e uma particularidade individual, ainda que gerada de universalidades. Falando de forma simples: se não há ninguém igual a ninguém, ou seja, se somos todos diferentes, como podemos ser colocados em categorias, padrões ou rótulos? É impossível. É por isso que aqueles que pretendem adquirir conhecimento astrológico têm de possuir capacidade de raciocínio abstracto e alta capacidade interpretativa em termos simbólicos, realizando - na interpretação do mapa astral - um conjunto avultado de raciocínios analógicos, sendo certo que tem de existir uma base sólida de conhecimento, relativo a cada 'símbolo', sedimentado à priori. Na mesma linha de raciocínio (e falando da forma mais árida possível), muito embora sejamos todos 'feitos' do mesmo 'barro', todos temos diferenças (intrínsecas e extrínsecas) que nos tornam seres únicos, daí a irresultabilidade de qualquer estudo de demonstração empírica, em termos gerais.
Se me disserem que existem questões astrológicas que, muito embora funcionem na prática, não têm uma explicação teórica muito bem fundamentada, eu sou obrigada a concordar. Todavia, a crítica não pode esquecer aquilo que fora explicado supra, tal como tem de perceber que o tema em apreço toca temáticas que rondam o metafísico, não podendo, por isso, ser corroborado por meros estudos demonstrativos. 
V.g., se me perguntarem porque é que se define o signo ascendente pelo simples facto de o Sol estar a ascender a oriente sob essa energia (constelação) aquando da hora do nascimento da pessoa, a única coisa que saberei responder é que, de acordo com os ensinamentos mais antigos, é essa energia que marca a primeira respiração da pessoa (ou seja, marca o seu primeiro contacto com o meio), definindo a sua tendência de afirmação de personalidade, através do seu 'impulso' para a vida. Se me perguntarem mais porquês, não saberei responder, todavia, saberei identificar a personalidade, que lhe corresponderá, em termos práticos.
Se me perguntarem porque é que, através da energia presente no Medium Coeli (ponto ficcional do mapa astral, representativo do Zénite Solar)conseguimos perceber qual é o direccionamento social, em termos profissionais da pessoa ou qual o tipo de profissões que mais se adequam (ainda que devam ser efectuadas as devidas analogias, no caso de a casa X se encontrar 'habitada' por algum planeta - relevando a sua significância intrínseca, os seus aspectos e a sua dignidade, ou seja, saber se o planeta está domiciliado, exaltado, em queda ou em deterimento - entre esse planeta e a energia presente na cúspide dessa mesma casa), a única coisa que saberei dizer é que, de facto, por mais estranho que pareça, a pessoa em apreço tem determinada tendência a ser percebida socialmente e determinada tendência relativamente à sua forma de lidar com pessoas que estejam numa posição de supremacia (daí as analogias normais com o pai, o patrão, etc). Exemplificando: Uma pessoa que tenha Touro no MC (Medium Coeli), tenderá a ser uma pessoa determinada e persistente na busca de um prestígio social, vulgo, carreira. Será alguém, cujo ideal de trabalho é uma profissão que dote o sujeito de segurança, podendo ter a ver com a administração de recursos. Todavia, se essa mesma pessoa tiver Marte na casa X, em Gémeos, a energia de Touro tem de ser analisada à luz desta nova significância. A receptividade de Vénus - regente natural de Touro - passa a ser alterada pela tendência impulsiva (Marte) na comunicação (Gémeos). Para calcular a forma como essa pessoa se sairia nesse campo, teriam de se averiguar os aspectos de Vénus e os aspectos de Marte (designadamente conjunções, sextis, quadraturas, trigonos e oposições, ainda que se devam também atender a aspectos menores). 
Tudo isto para explicar que a racionalidade a aplicar não se pode basear em concepções meramente teoréticas e explicativas pois, se assim fosse, qualquer um interpretaria o seu próprio mapa. Ao mesmo tempo, não estamos perante uma racionalidade exclusivamente prática, uma vez que é necessário um estudo árduo, à priori, denotando a necessidade teórica.
Destarte, a astrologia é um conjunto dessa teoria (acessível a qualquer comum mortal) e de uma prática que tende a seguir um raciocínio analógico, o que complica a interpretação, para muitos.
Resumindo: que me digam que não conseguem entender, é uma coisa; dizerem-me que não se trata de um sistema de conhecimento, é outra. 
Dizerem-me que é ridículo ou mera coincidência é... bem... para esses só tenho uma coisa a dizer: vão estudar astrologia, como eu fiz (sozinha). Não digo que comecem nos primórdios, mas vão ler Dane Rudhyar, Liz Greene, André Barbault, Stephen Arroyo, entre tantos outros (há, inclusivamente, astrólogos portugueses muito bons). Desenvolvam o raciocínio abstracto e analógico. Se não ficarem convencidos, argumentem, mas não me digam que é ridículo, porque a astrologia transporta, em si, a compreensão do divino: corrobora a lei da correspondência; coloca em evidência a existência do Ritmo; da polaridade; do género; da vibração; da causa e efeito; e faz-nos perceber a importância da lei do "mentalismo", porque a mente é, de facto, a única coisa que nos permite mudar intrinsecamente. Façam-me um favor: não a fechem!! E perdoem-me qualquer ironia. 

Maria Vaz





segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Somos tudo e nada.
Feitos e destruídos pelo tempo.
Oxidados pelos pensamentos que,
a toda a hora, respiramos,
com sofreguidão.

Somos recantos
e palavras.
Olhos.
Vontades.
Desejos.

Efémeros e eternos.
Palavras antagónicas.
Sentidos.
Um mar oculto,
envolto em espuma de mistérios.

Somos o segredo que alguém procura
e o Sol que alguém perdeu.
Os dias e as noites.
Isso.
E muito mais do que isso.

A sensação
ávida de liberdade
que o vento traz ao passar.

A escuridão e a luz.
A doença e a cura.
O amor e o ódio.
A coragem e o medo.
A curiosidade.
A busca 'não sei de quê'.

Sol e chuva.
Vida, morte e renascimento.
Um caminho.
Um fado.
Uma enigmática indefinição.

Tudo e nada.
E todos os nadas que há em tudo.
E assim vivemos:
a pensar que sabemos o que somos
sem nada saber!

Maria Vaz




sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Schopenhauer, n' "A Arte de Ser Feliz", deixa a pergunta retórica: 
"Onde fica, portanto, o espaço para a nossa felicidade?". 

Ele que escreveu, ex ante (ainda que por outras palavras), que acabamos por negligenciar o presente, entre as saudades do passado e as preocupações do futuro, vivendo de 'ilusões'. Defendia que se devia usufruir do "presente da maneira mais serena possível". 
Schopenhauer sabia bem o que dizia, no auge da sua cautela, não meramente pessimista. Todavia, perdia-se no unilateralismo do seu descontentamento. 
Por mais que o estado de alma tranquilo (em que a contemplação traz a verdade, a objectividade que só se vê além do ego, que nos torna tendenciosos, ainda que inconscientemente, porque a teimosia e a vontade de 'ser' acabam por nos trazer o orgulho de estar 'certo, de ter a 'razão' - como se a razão fosse um objecto e se pudesse adquirir),  possa ser considerado 'feliz', porque detentor de 'equilibrio', não me parece ser o meu ideal a atingir. 
Por mais que o autor conhecesse o ritmo (que tudo compensa), vendo o equilibrio como uma forma da velha máxima que defende que se deve "evitar o prazer para fugir à dor", julgo que se esqueceu de que esse estado de amenidade seria uma espécie de existência não vivificante, com intensidade, daquele mesmo 'presente'. Seria uma terceira via de fuga, além daquelas por ele mencionadas. Seria uma abdicação pura de sentir as pessoas e as coisas. Seria sobrepor a razão (fria e seca) a um sentir (quente e húmido) que, muito embora contenha os resquícios (e seja também a origem) das emoções que nos 'desequilibram', ao longo da vida, acaba por ser o essencial que os olhos não vêem (relembrando o clássico de Saint-Exupéry). Não serão, afinal, esses sentimentos, vivências, emoções, energia, que permanecem... e levamos desta vida, quando a morte, do nada, nos levar? Não serão eles a causa de uma evolução positiva (e talvez necessária para que atinjamos outros patamares)? 
Muito se fala acerca da felicidade individual, da sua existência ou inexistência, da sua efemeridade, da sua ciclicidade, da sua busca. Questões interessantes, com fundos de veracidade particular, que necessitam, no meu entender, de uma visão mais ampla do ser (além da imagem do Homem), da vida (além da existência), do acto de viver, do presente. 
E, além de tudo, ainda bem que é assim. Ainda bem que 'fugimos' dela e julgamos nunca a atingir. É que, além de sentirmos necessidade de acreditar, precisamos de sentir esperança na busca de algo. Já OSHO dizia (na sua obra 'Intimidade'), que o ser humano não se contenta com o que alcança, que vive sempre a busca de algo. Não poderia concordar mais.
Não passamos de poeira estelar agregada num corpo, animado por energia.
Somos uma partícula de um todo, que vive no eterno dualismo. Somos seres iluminados e obscurecidos. Vivemos entre o passado (que é somente o que a memória nos permite recordar, ainda que não haja um critério racional), e o futuro que é feito de sonhos e esperanças. E somos limitados. Limitados corporalmente, socialmente e, até, inconscientemente. A juntar a tudo isto, gostamos de nos limitar mentalmente. Não manobramos os pensamentos e, por esse motivo, continuamos a fugir. Mas fugimos cautelosamente. Fugimos do presente, com base no conhecido: poucos ousam pensar de forma ilimitada, de modo a tentar, ininterruptamente, melhorar o estabelecido, porque se torna mais fácil seguir os ditames de uma estrutura dada como certa, ao invés de inovar; poucos têm coragem de adentrar num mar de emoções, de tudo e todos, que estão por toda a parte; poucos sentem; poucos compreendem; poucos têm sequer noção da sua particular existência. 
Enfim, somos todos escapistas e buscadores.
 Todavia, as buscas sofrem delimitações: uns, mais primitivos de espírito, buscam os prazeres do corpo e a sua subsistência, não ultrapassando esse âmbito (contentam-se com o meio e apenas buscam novos 'objectos'); outros, habituados a seguir a 'manada', buscam (além dos prazeres corporais e da subsistência), o reconhecimento social que acham que merecem (sendo que esse 'reconhecimento' é, na maioria dos casos, feitos à luz do seguimento de pensamentos, da estrutura social ou das concepções dominantes), sendo mais regidos pela razão do que pelo sentimento, factor, aquele, que predomina até nas suas relações sociais; Um grupo, de entre estes últimos, busca a inovação de pensamento e a rectidão, um aprimoramento da sociedade ou das instituições, associações ou grupos em que se insere, seguindo a 'manada', ainda que com um sentido de 'dever ser' intrínseco à sua essência, não obstante a tendência a seguir determinadas conveniências sociais, por motivações egoísticas; À parte, outros existem que pensam além da estrutura, ousam ir mais longe e questionar o que mais ninguém questiona (por conveniência ou comodismo), gostam de inovar e sentem (sentem tudo - as pessoas, as imagens, as palavras), o que lhes vale a conotação de 'estranhos', 'diferentes' - porque gostam de chocar, de sentir a intensidade de tudo, além do intelecto - são os 'artistas'  (que compreendem os outros, devido à sua grande 'receptividade', muito embora tenham dificuldade em se sentir compreendidos), e buscam a transcendência, o retorno à luminosidade estelar, acabando por inspirar os outros; no final, encontram-se os 'sábios', inspirados pela filosofia e pela compreensão das leis da natureza (que vão muito além das imperfeitas leis humanas, cheias de lacunas e limitações funcionais e temporais) - são aqueles que, de acordo com Schopenhauer, vivem o presente com serenidade, em equilibrio. Buscam exclusivamente a compreensão e a sabedoria. Resignam-se a viver as leis naturais e a seguir aquilo que a vida lhes traz. Vêem a felicidade em tudo, mas são os mais tristes. Vislumbram a vida como um milagre, mas vêem a verdade por detrás da aparência. Sentem mais a linguagem corporal do que as palavras. Observam e abdicam. Guardam. São os que mais fogem do presente. E são muito poucos. A verdade pesa mais do que o chumbo (não é por nada este metal corresponde a Saturno, que tem a ver com a estruturação, a tradição, o dever ser social, as limitações, a razão sobre a matéria - fria e seca, como o vento gélido de um dia de sol, sem nuvens, em que a humidade é escassa). Disse que não eram felizes, porque o equilibrio do yin e yang (em alusão aos orientais), pressupõe a integração dos opostos. Vivem entre a luz e os buracos negros e contentam-se com isso, porque têm noção da sua impotência. 

*Eu, no meio deste circo que é a vida, sinto-me uma perseguidora do impossível. Uma idealista. Uma escapista. Aliás, este texto não é senão produto de uma fuga do presente. Uma cristalização de pensamento que, certamente, ficará nas minhas memórias, alimentando o ciclo de fuga, que se vai renovando... a cada pormenor pelo qual a minha memória se apaixona ou que a minha vontade teima em assimilar como 'sonho', esperança, expectativa, mera conjectura ou juízo hipotético. 

E deixo-vos este 'bocadinho' de Álvaro de Campos:

"Porque eu amo infinitamente o finito, 
Porque eu desejo impossivelmente o possível, 
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser, 

Ou até se não puder ser... "

Maria Vaz








terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Dizem que no início apenas 'existia' o verbo. Dizem que o verbo era Deus. Dizem que Deus era luz e que a luz é energia, sendo a 'maior' energia, o amor. Dizem que o verbo está em tudo e todos, daí que seja omnipresente, omnisciente, omnipotente. Conceitos bonitos, passíveis de fé. 
As pessoas, envoltas na selva egóica da vida quotidiana, sem tempo para pensar ou avaliar o sentir, precisam de acreditar em algo superior. Precisam de acreditar num Deus com uma face, com um corpo, como uma identidade, que não nos comanda, mas nos protege, e que não fica impávido às mais prementes necessidades humanas. 
As pessoas acreditam Nele, enquanto entidade (não enquanto essência), como se não conseguissem partir de uma concreticidade com cara para um pensamento abstracto, que envolve uma essência que está em tudo e todos.
As pessoas precisam de ir à missa, onde vêem uma cruz com um corpo, para pensarem na origem daquilo que os leva ao local de culto; precisam da missa (enquanto ritual), para reflectirem nas palavras por detrás das alegorias que, muito sinceramente, poucos atingem. As pessoas precisam de se 'confessar' porque trazem consigo resquícios de emoções presas, recalcadas. Sentem peso na consciência, de alguma forma, mas preferem ir 'confessar-se' a um intermediário (uma espécie de representante de Deus na Terra), esquecendo-se que podem fazer isso sozinhos, em silêncio, porque não passa de uma questão de 'consciência'.
Eu, muito sinceramente, tenho medo de quem tem medo da solidão. Fico impressionada com a capacidade de repetição ritualística, por costume e acomodação, que vislumbro quando frequento locais de culto. Isto, porque as pessoas não pensam, não gostam de pensar e, acima de tudo, não gostam que lhes digam isso ou lhes façam questionar aquilo em que acreditam, porque sim. Porque o 'porque sim' é a melhor resposta que arranjam, após os argumentos que rondam a tradição e os bons costumes. 
Irrita-me ainda mais ver como esse tipo de comportamentos, inculcados nos rituais, se transmitem a outras áreas da vida, mormente a nível político e, até mesmo, pessoal.
As pessoas seguem a 'ordem' da vida política sem questionar, ou, mesmo questionando-se, deixam-se levar pela inactividade, pelo conformismo; conformismo, esse, que se vislumbra nos ditames de uma vida pessoal 'padrão'. 
E fico estupefacta quando constato que, na verdade, as pessoas, em geral, são muito facilmente manipuláveis, porque se reduzem veementemente; porque colocam toda a sua fé nas palavras que, um dia, alguém disse; porque se desacreditam; porque não afirmam a essência daquilo que são; porque têm medo da rejeição social; porque foram habituados a acreditar na forma e a nem sequer equacionar a substância; porque não percebem que o essencial nos é 'mostrado' pela consciência, em pequenos momentos de pensamento abstracto.
Na verdade, critico-os, mas não os condeno. São produtos de uma sociedade standardizada, que quer estereótipos de 'bons cidadãos', pessoas que sigam a norma, a regra, a manada, o 'dever ser' artificializado e que, jamais, o ousem colocar em causa. Pessoas que, mesmo vendo a sua qualidade de vida decrescer, continuem a achar que está a ser feito um bom trabalho, porque não ousam questionar o mérito de quem elegem, como se a imagem vendesse competência e os laços de sangue fossem garantidores de capacidade intelectual ou de bom carácter.
Enfim, não quero com isto criticar a prática religiosa de uns, nem dizer que esta 'realidade' é de todos. Não. Há, certamente, um ou outro ser deambulante neste país que está além deste discurso, que o compreende, muito embora prefira fazer corresponder a forma à substância, em prol do 'bom nome social' de que dependem, em termos profissionais ou por outros motivos. 
E, depois de ter escrito tudo isto, continuo a acreditar na precedência do verbo. Continuo a vê-lo em pequenos nadas que não envolvem, necessariamente, a ida a um local de culto. Continuo a acreditar nele sempre que vejo sentimentos fidedignos, que se vislumbram pela luz natural que irradiam, desde os mais simples aos mais intensos. Continuo a acreditar no amor (essa energia que nos une), como uma reciprocidade luminosa que irradiamos e fazemos irradiar, quando existe. Uma energia, sentimento, uma indefinição que se sente no plano pessoal e que, além daquele, deveria ser incentivada no plano social, em prol de uma solidariedade não denegridamente caridosa. 
E, acima de tudo, acredito que somos semi-definidos por aquilo em que acreditamos (sendo que não poderemos nunca ser definidos, porque existem em nós características que oscilam entre uma espécie de genes dominantes e recessivos, que o tempo teima em activar). Sou uma descrente que acredita. Mas, no meio de uma ordem artificial, que vejo desagregar sem questionar, acomodada, a razão teima em desacreditar o meu optimismo. 

Pablo Neruda escreveu:

"Si nada nos salva de la muerte
al menos que el amor nos salve de la vida"

*O Pablito que me desculpe, mas... no meio deste caos (disfarçado de ordem), o que é preciso é ironia. Ironia pura, porque as palavras só chegam aos ouvidos de quem as quer ouvir e não adianta passar a vida a dar sermão aos peixes. 

Maria Vaz



sábado, 23 de novembro de 2013

Vivemos numa sociedade em que a ridicularidade do 'dever ser' prevalece sobre a verdade (como se fossemos todos criancinhas e tivéssemos de eufemizar a vida, a morte, a realidade, a vontade, o que somos e aparência do que somos, o desejo, o amor e o ódio), em que o sentimento e o ser intrínsecos são ocultados pela necessidade constante de dar nas vistas, por parte de um ou outro ser desprovido de luz própria. Tudo numa desvirtuada espécie de cultura de aparências.

As pessoas esquecem-se que não adianta quererem parecer X, Y ou Z, porque nunca serão assim. Cada um é o que é. Dificilmente alguém mudará isso. Não adianta ostentarem o bem A, B ou C, porque o verbo 'ter' fica totalmente submergido pelo ser, quando o culto do ego não esteja envolvido.

A vida muda tão rapidamente como a noite se torna dia. 
As larvas costumam tornar-se borboletas. 
As borboletas, ainda que não queiram, morrem. 
No final, a vida vai ser o quê? 
O fingimento de enaltecimento de um ego mórbido e ostensivo?

De que nos adianta sofrer por quem não nos entende? 
De que nos vale implicar com quem não merece os nossos argumentos? 
De que nos vale equacionar o belo no meio de um caos obscurecido? 
De que nos vale dizer que sim, sorrir, dizer que a amizade é eterna, quando, muitas vezes, a fraternidade que fica é a mesma que nutrimos por uma paisagem ou por uma pedra? 
Confesso-vos que gosto muito mais de algumas paisagens ou pedras do que de alguns seres que andam por aí. 

A natureza humana une-nos por fios invisíveis, que a nossa mente vai criando. A vida é uma constante, rodeada de variáveis que caminham, certamente, para o encontro de afinidades reais, no meio de tanta mutabilidade. É uma metamorfose que nunca pára, um correr de ciclos, que vão desde a primavera ao inverno da alma. 

Sem dúvida que, para chegarmos à concentrada sabedoria saturnina (que só o Inverno da alma possibilita), teremos de passar pela inevitável queda das folhas caducas (que é a principal lição metafórica que o Outono nos vai ensinando). 
Há que deixar as folhas caírem, voarem, seguirem o seu destino...ao mesmo tempo que vivemos a transformação, que a mudança de estação faz imperar, crescendo. Depois da passagem da estação perceberemos que o que é perene sempre existiu, ainda que não tenhamos reparado nisso antes. A percepção da perenidade é como a descoberta dos pequenos essenciais da vida - demorada. Não é para todos. A maioria de todos anda entretida com a descoberta e a vivência da Primavera e do Verão da alma. E a idade formal é só mesmo isso - uma formalidade restritiva do ser e discriminativa do saber - mais uma ridicularidade de uma sociedade em que a aparência está entranhada.

Quem caminha pelas sinuosidades cíclicas da vida, confiante daquilo que é (e nos talentos que possui): jamais será alguém que vive satisfatoriamente com adaptabilidades sociais; jamais será alguém que se contenta com pouco, com migalhas de particularidades afectuosas ou com resquícios de efemeridades ultra desvaliosas.

Quem vive de essencialidades quer muito mais do que folhas caducas. 
Quer, muito além, de folhas perenes. 
Quer encontrar as raízes daquilo que é! 
Quer ver o mundo sem restrições! 
Quer que a vida seja semelhante a um voo de condor: 
elevado, intenso mas estável, tranquilamente delirante, transcendente.

Desta vida só quero a verdade,
o resto são ilusões passageiras que o nosso ego inventa. 
E a vida é muito mais do que uma mera circunstância. 
No final, o ritmo trará a vivificação de uma sintonia 
que a vibração energética não deixará negar. 
É o tempo, só o tempo, 
que nos traz a clareza...
no meio de uma ou outra nebulosidade, 
daquelas que Neptuno tanto gosta de propiciar. 

Maria Vaz




terça-feira, 12 de novembro de 2013

Vejo-te em pequenas minudências, detalhes e pormenores.
Escuto-te no silêncio ensurdecedor da consciência.
Sinto-te no vazio, aparente, que a ausência de luz esconde.
Antevejo-te nas coincidências que a magia da vida faz acontecer.
Vivo-te na intensidade das emoções inexplicáveis que tocam o coração.
Intuo-te na solidão falaciosa da ausência de companhia.
Capto-te em imagens, nomes, números, símbolos, conexões.
Reflicto-te com base em livros ancestrais:
Alegorias que atravessaram o tempo; histórias; metáforas;
Filosofias complexas e baratas; romantizações do mundo com
resquícios de verdades essenciais.

A mente humana complica-te:
Não te vê, escuta, sente, antevê, intui, capta ou reflecte.
Desacredita-te porque quer outra coisa, que não a verdade.
(A verdade dói, não é?
E o Ego é sempre o Ego: aquele ímpeto de vaidade que nos assola
E nos cega; que nos agiganta e nos esmaga; nos dignifica e desumaniza).

Esquecemos-nos da leveza da essência, da natureza, do intangível.
Perdemos-nos em complicações aparentemente descomplicadas.
A razão excessiva torna-nos escravos de automatismos de relativização
axiológica que andam de mãos dadas com o 'desvalor' essencial,
a falta de personalidade, de brilho interior, de virtuosidade nos gestos e nas palavras.
A neutralidade do raciocínio lógico
faz-nos enveredar pelas caminhos sinuosos de um rumo sem iluminação.

E, no entanto, a verdade está em tudo.
Em toda a parte.
Tatuada em momentos, símbolos, auras, reacções, tendências.
E, eu, costumo perguntar-me:
Não serão esses pedaços, iluminadores de verdade,
demonstradores de uma ordem no caos?
E, como em tudo, não estará essa ordem dentro de nós?
Não aflorará do silêncio aparente onde nos gritam as palavras?

Maria Vaz



terça-feira, 5 de novembro de 2013

Que o amor seja o ideal a atingir!
Que a paixão seja o ópio do tempo!
Que os olhos sejam muito mais do que espelhos da alma!
Que o corpo seja um templo a um Deus qualquer!

Que a vida seja uma descoberta contínua!
Que o sonho nos invada, sempre!
Que as lágrimas nos fortaleçam!
Que o Ser nos eternize...

Que a efemeridade sirva para que percebamos o eterno!
Que o mundo nos faça evadir, ainda que pela banalidade!
Que a alegria venha sempre das pequenas coisas.
São elas que nos caracterizam
Até quando não sabemos o que somos...
E Ser é não saber o que se é.
Saber o que se é...
é viver a ilusão de um ideal que não chega!
Ser o que somos é deixarmos-nos ir
por entre as vielas entupidas pelos trânsitos do Destino!

Que a vida nos dê a ávida sensação,
que supera tudo o resto.
Que nos faça sentir, além de nós, os outros!

Que o sonho nos faça chegar ao impossível,
Aos emaranhados de almas alheias!
Que a mente nos faça caminhar para a perfeição!
E que a natureza nos renove a cada instante...!

Isso e aquilo que as palavras não conseguem dizer...
É o que desejo (desta) vida!

Maria Vaz



domingo, 20 de outubro de 2013

Vangloriações,
egocentrismos,
possessividade,
calculismo:
Peculiaridades plasmadas
em faces aparentemente virtuosas.

Incertezas,
insegurança,
medrosidade excessiva 
em enfrentar situações:
normalidades impacientemente
inquietantes em faces comuns.

Há anoiteceres tão elucidativos
como a primeira gota de água,
anunciadora da intensidade de uma precipitação.

Há complexidades que se abeiram
de turbulências tão conexas 
a uma cobardia amargurantemente
desvaliosa...

E, depois, há percepções 
certeiras de que o ritmo avança
e que, indubitavelmente, 
o arco-íris trará ouro ao invés de cobre. 

Maria Vaz



sábado, 19 de outubro de 2013

Os pensamentos são
aquela exactidão inexacta
que a infinitude prorroga.
O temor de vivências.
A equação de possibilidades.
Um ir e voltar entre premissas,
tempos,
a tese e a antítese.
A busca de uma síntese que nunca se alcança.

Não serão eles meras nebulosidades
vagueantes,
de um sentir que tudo engloba,
tudo compreende,
tudo sabe?

Pensar em demasia é não saber.
É criar verdades que não existem.

De que nos vale equacionar
o infinito,
se existem forças muito fortes
que nos encaminham para determinada galáxia?

De que nos vale pensar
e achar que o pensamento é inovador,
quando, talvez, essa alteração de vontade
não passe de algo pré-determinado?

Pensar,
é característica comum de todo o ser 'racional'.
Pensamos por aparente necessidade,
por automatismo.
A maioria das vezes,
Pensamos que pensamos.
Tendemos a ser guiados pelo senso comum:
aquela realidade que nos foi socialmente incutida,
impregnada...
Ou fugimos dela para a ver além do que é,
vendo como gostaríamos que fosse.

Sentir,
é outro mundo.
É saber sem cair em dualismos.
É conseguir captar notas de uma essência
incompletamente cognoscível.
É uma capacidade rara,
que habita a alma de muito poucos.

Maria Vaz


quinta-feira, 10 de outubro de 2013

O que são as palavras
perto da viagem de um olhar?
O que são os dias
perto da eternidade essencial?

De que nos valem os pensamentos
quando podemos sentir ininterruptamente?
De que nos valem os sorrisos
se não há uma paixão na alma?

O que nos diz a natureza,
além do renascer dos dias, das estações, dos anos?
O que nos dizem as pessoas,
os conselhos ou os discursos vazios?

Não passaremos nós de uma mera peça de um puzzle?
Poderemos nós alterar o nosso fado?
Ou as estrelas marcam-nos
como nós marcamos os livros lidos?

Existirá a outra metade do 'andrógino' original?
Ou as metáforas nunca deixarão de ser isso mesmo - metáforas?!
Existirá o 'tal' amor incondicional?
Ou será que existe apenas o amor pela ideia do amor?

Sabemos tão pouco acerca do fundamental...

Maria Vaz



quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Nunca vos aconteceu 'sofrer' inexplicavelmente por pequenas coisas, 'pequenas' pessoas ou minudências quotidianas, que nos dizem, infelizmente, muito mais do que aquilo que, logicamente, nos deveriam dizer?? Pois é, estas coisas conexas a análises impensadas e a percepção de sentimentos e motivações recalcados, nos outros, é uma treta (para não utilizar um vocabulário mais forte que, decerto, explicaria muito melhor a minha inquietação).
Acredito que quem leia possa não perceber. Certamente não seria incompreendida se todos de vós compreendessem aquilo que, inefavelmente, vos quero dizer.
Mas hoje (e espero que durante muito tempo), estou voltada para o desapego dessas 'coisas', dessas minudências, desses 'fardos' que, muito sinceramente, não devem ser para mim. Porque não me servem. Não me fazem sorrir. Não estimulam o melhor que está na origem daquilo que sou.
Pois é, não estou para me reduzir a pequenas coisas, pequenas pessoas, diminutos pensamentos ou sentimentos café com leite.
Esta coisa de ser como uma esponja e absorver tudo o que de bom e mau ocorre à minha volta tem os seus quês, os seus dramas. Mas hoje (e talvez amanhã), vou (tentar) desligar-me de análises e analogias. Vou deixar de olhar para os outros a tentar identificar padrões ou com o intuito de desmistificar o indesmistificável. Vou deixar-me ser surpreendida pela fenomenologia do meio. Vou (tentar) relativizar.
Eu sei que as pessoas são infelizes porque se apegam ao que não devem, dogmatizam ilusões, acreditam em inverosimilhanças alheias que se vislumbram na falta de intensidade do olhar de quem as profere. As pessoas 'sofrem' porque se agarram ao sofrimento, como se fossem ultra masoquistas. Eu, não estou para isso.
Enfim, hoje estou mais permeável a filosofias estóicas e orientais. Acredito que basta relativizar, desapegar, passear, sorrir. E, acreditem, isto é tudo uma questão de amor próprio.

Maria Vaz



sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Os dias
 são as partículas
artificialmente fragmentadas
de um absoluto eternizado
numa essência ontológica,
tendencialmente imutável.

O tempo
não é mais do que a ordem
de um caos que tudo contém
e que tudo ordena.
É a lei do ritmo em acção.

O espaço
é uma percepção dimensional.
Uma estratificação do todo.
Uma relativização do 'olhar'.

O ser humano
é tão infinito como o universo,
embora a pequenez egoística
o limite a um sistema,
a uma estrela de pequena dimensão.

Não é óbvio que vivemos numa ilusão?

A sabedoria
é o caminho
de uma verdade reveladora
que só ilumina os que ousam
transformar-se.

Maria Vaz






quinta-feira, 3 de outubro de 2013

A chuva deleita a alma
como se nos fizesse
estremecer para uma nova vida...
Acorda-nos da ilusão
provocada pelo tempo,
que não para...
Traz-nos a inspiração
perdida,
dos dias em que o sol
atingira o zénite.
Traz mais poesia à vida!

Maria Vaz



terça-feira, 13 de agosto de 2013

 Vivemos num mundo em que as pequenas coisas passam verdadeiramente despercebidas ao mais comum dos mortais. Não raras vezes, são colocadas de lado e rotuladas como inutilidades, irrelevâncias ou minudências dispensáveis, entendidas apenas por aqueles que “não querem fazer nada da vida”.

São comummente rotuladas como “filosofias baratas” de uns poucos que pensam numas coisas desprovidas de nexo ou conteúdo, porque os rotuladores entendem que o nexo tem de possuir uma lógica silogística e que o conteúdo só existe se estiver em consonância com o dogmaticamente aceite.

As pessoas, "lato sensu", não percebem que o controlo das grandes ‘coisas’ passa pela percepção das pequenas, e que, inclusivamente, a capacidade de vivênciar os grandes sentimentos se torna detectável nos gestos sublimes com que nos denunciamos.

Sim, é verdade, denunciamo-nos. Denunciamos mesmo aquilo que não sabemos que sabemos. De diferentes modos. Em diversas circunstâncias. Por motivos diversificados. Porque jamais alguém conseguirá ocultar o sol.

As pequenas grandes coisas repercutem-se na forma como encaramos um problema, lidamos com um elogio ou abraçamos alguém. Denunciamo-nos no modo de gesticular as palavras, de projectar a voz, de colocar eloquência (ou não) no discurso, na expressividade do rosto (ou na sua ausência), na forma de caminhar, nas palavras que escolhemos quando queremos ser profundos ou, então, na forma como damos a entender que o profundo é inexpressável em palavras. Pois é, quem nunca se deleitou na expressividade de um olhar?

 Acreditamos num tempo que impera, nos coordena, condiciona, restringe ou delimita. Angustiamo-nos com a sua passagem inexorável ao mesmo tempo que a ansiamos de forma inegável, mas não percebemos que tudo está no ‘agora’. Não fazemos nada para deixar aqueles automatismos silenciosos e perdemos, assim, toda a liberdade que só se alcança pelo caminho do auto-conhecimento.

Acho incrível e caricata a forma céptica com que a grande maioria das pessoas encara a ideia, aparentemente retrógrada, de ‘destino’ - embora a perceba, parcialmente, devido à grande carga fatalista que o conceito foi assimilando pela impregnação de uma visão catolicista do mundo, que atravessou a história, desde a idade média até à idade contemporânea.

Não será o ‘destino’, o ‘karma’, etc., construído por uma série de repetição de tendências humanas em determinado sentido, em determinadas áreas da vida?
Não serão essas tendências as grandes condicionantes do presente? E o condicionamento não será maior pelo facto de nem sequer equacionarmos a repetitividade do ‘modus operandi’?

Bem, na minha opinião, só é livre quem contraria aquelas tendências inatas. Quem as transforma naquilo que quer ser. Aí, sim, a vontade conduz-nos à liberdade e o destino deixa de ter uma carga fatalista. Deixa de ser aquilo que era tido como uma irreversibilidade do ‘logos divinus’ para passar a ser um império da vontade. Torna-se na saída da zona de conforto.
E, na linha dos Cabalistas, “é quando saímos da zona de conforto que a magia acontece”.

Maria Vaz


sexta-feira, 19 de julho de 2013


Pessoas estranhas, diferentes, autênticas, despidas de preconceitos... 
Pessoas com ideias próprias, que não sigam a manada, que lutem por ideais...
Pessoas que não se rendam a nebulosidades vagueantes e que não se tornem em espelhos (fumados) de imagens alheias.
Pessoas com desejos, com esperanças, com vontade de melhorar a si próprios antes de tentarem melhorar o mundo.
Pessoas idealistas que buscam a Justiça, a solidariedade e a tolerância, ainda que tropecem na imperfeição inarredável da natureza humana.
Pessoas instigantes, incentivadoras dos mais nobres sentimentos, ainda que ocultos num distanciamento natural e numa estranheza cintilante.
Pessoas que se perdem profundamente, que compreendem as grandes vicissitudes da vida, e que - no meio do caos - se encontram.
Enfim, gosto de pessoas que se denunciam nas pequenas subtilezas que a estranheza, aparentemente, não deixa transparecer. Pessoas transparentes. Pessoas com brilho. Pessoas que não necessitam de ambições desmesuradas e de estratégias de actuação.
Pessoas que vêem a beleza no mundo, que acreditam sempre no melhor, apesar de lidarem, inevitavelmente, com a projecção social dos sentimentos mais negros. 
Pessoas escassas - mas existentes. Pessoas estranhamente estranhas. Pessoas que facilmente se identificam pela iluminação natural, demonstrável pelas palavras, pelos gestos e pelo sorriso cintilante do olhar.

Maria Vaz





sexta-feira, 12 de julho de 2013

A nossa mente é como um pássaro deambulante e aprisionado, que teima seguir sempre as mesmas rotas.

Rotas perdidas na mesmice dos impensados actos reflexos que nos denunciam. Rotas que se encontram na similitude de concreticidades fácticas indesmentíveis. Rotas advenientes dos automatismos cómodos que nos dirigem sempre à obtenção dos mesmos efeitos.

O mundo é muito pequeno, entediante e extremamente previsível para quem nada arrisca. Urge então ampliar o mapa, cruzar caminhos, vislumbrar novos horizontes e equacionar novas possibilidades. O universo suspira a favor das mentes que não se fecham com base em falsos moralismos e que não se prendem a preconceitos sociais que andam de mãos dadas com dogmatismos ontologicamente redutores.

Maria Vaz


sexta-feira, 28 de junho de 2013

Aquele minuto sombrio, em que a nitidez pesa
E o realismo exasperado se sobrepõe à beleza do mundo,
Que passa a parecer um vislumbre fantasioso de idealidade.

Aquele segundo fatídico, em que teima vir à tona
Um travo amargo de verdade absurda…
A verdade dicotómica que deixamos transparecer
Através dos actos que não ousamos praticar,
Das palavras sentidas que nos recusamos a proferir,
Dos gestos inegáveis, instintivos e irreprimíveis
Constantes no nosso turbulento modo de agir.

Contudo, desliguemo-nos de dualismos.
Deixemos o realismo arrumado na cave do ser.
Toquemos o idealismo assolador do sótão do sentimento.
Equilibremos o insusceptível.
Relativizemos a verdade.
Façamos o belo (re)florescer,
Como uma Fénix renasce das cinzas.

O importante é o essencial:
Os sorrisos inequívocos, ainda que contidos por um dever ser que não é;
A intencionalidade subjacente às palavras interditas pela razão;
Os gestos que, de tão naturais, postulam as emoções
Adormecidas na intensidade de um sentimento inexpresso, mas expressivo…

Maria Vaz

quinta-feira, 20 de junho de 2013


Perdida
É como me sinto,
Nos dias cinzentos da tua ausência.

Submetida
Ao poder do instinto
No auge do incremento da minha impaciência.

Assim, num ápice alucinante
De murmúrios ténues e trémulos
Entre um passado devastado e um presente edificante
Espero eu, a sintonização do teu sorriso.

(Maria Vaz)







sexta-feira, 14 de junho de 2013

Envolta na subtileza do momento
Perco-me na necessidade de definir o indefinível,
Na veleidade da condensação de um pensamento...

Na insatisfação inebriada e intransmissível,
Envolta na fome de conhecimento...
E na sede do incognoscível.

Iluminada por uma curiosidade insaciável
Que se perde facilmente nos meandros de minúncias
Das pequenas subtilezas cintilantes, insusceptíveis de renúncias…
Porque grandes instigadoras da procura de uma sabedoria inalcançável…

A sabedoria pura -  Indecifrável. 

(Maria Vaz)


quinta-feira, 13 de junho de 2013

A abstracção concreta na ambiguidade de um pensamento;
A catapulta insofismável de um entrave ao sofrimento;
A dualidade inenarrável entre o ser e o nada;
A exteriorização surrealista de uma ilusória jornada.

O inenarrável por detrás de palavras desgastadas,
Banais, vulgares…deterioradas;
Como podem, as palavras, dizer tudo
E, ao mesmo tempo, não dizerem nada?

A prolixidade insintetizável da sensibilidade humana,
Perante os momentos calmamente electrizantes que nos consomem
A alma, o espírito, a chama…
Em prol daquela densidade, que habita aqueles que dormem…

A vicissitude residente nas almas alienadas;
O abismo existencial dos que caminham em paralelo,
Unicamente por não terem as suas substâncias afirmadas
Neste louco mundo, em que tamanhas contrariedades vivem em constante duelo.

 (Maria Vaz)




quarta-feira, 12 de junho de 2013

Perdida nos emaranhados do sentir,
Na confusão de um querer que extravasa o finito
Vivendo a complicação desligada que se esvai
Na petrificação dos medos… em calcário ou arenito;

Com uma passividade universalizada
Por um olhar que tudo decompõe,
Que vagueia pelas coisas como uma ave alada
Pelo amor que a analise impõe.

Atenta aos pequenos nadas
Que, juntos, são quase tudo
Vou observando, muito subjectivamente:
A natureza, a vida, o meio, o sentido… o conteúdo!

A mineralização do ser na forma
A sedimentação do eu na ideia
A erosão de um ego além da norma
A criatividade sensorial que por aí vagueia

E, assim, atenta a tudo,
Vai deambulando o meu pensamento, confuso,
Além da linha do horizonte…se possível.

Porque não viver entre a realidade e o sonho?

Nada me parece tão antagonicamente credível
E tão atormentantemente medonho! 

(Maria Vaz)


terça-feira, 11 de junho de 2013

A vida é um paradoxo insublimável.
O presente é a constituenda tentativa (diluidamente inacabada) de resolução daquele paradoxo…daquele eterno mistério original.
Estamos condenados a andar perdidos na ambiguidade de um tempo que a todos restringe, que a todos ordena.

O facto de sermos o que somos é, já de si, uma contrariedade insofismável relativamente às perspectivas que encaram o homem, meramente, como uma obra em execução.
Não quero dizer, com isto, que não acredito que o seja. Acaba por sê-lo. Mas a execução da 'obra' parte, sempre, da existência de uma forte base, "ab initio".
Ver o Homem desprovido de qualquer essência inata, seria reduzi-lo a um ‘nada’ que nasce e que se vai alimentando unicamente da assimilação do meio em que se integra. 
Se assim fosse, nada lhe pertenceria. Ele seria somente pedaços de tudo e todos.
Seria uma esponja frágil, sujeita a perder-se na complexidade intersubjectiva com que se relaciona quotidianamente. 
Seria mais um. Um átomo que nunca se autonomiza da molécula. Uma partícula sem vontade própria. Um seguidor inquestionável de uma ‘manada’ facilmente influenciada ou manipulável por alguém que se autonomize.

Se é verdade que me parece que a influência do meio é indubitável (e os estudos psicológicos corroboram-no), não me parece menos verdadeira a existência de um essencialismo caracterizador de cada ser humano. 
Porque o ser humano é insusceptível de padronizações, ainda que a analogia seja a principal ‘arma’ na obtenção de verdades particularizadas, com base em padrões naturais. 
Sim, a natureza tem padrões indesmentíveis, que a física cada vez mais confirma e a que a filosofia, desde sempre, esteve atenta…

Dito isto, como me poderá dizer uma sociedade conformista que facilmente se deixa levar pelo já criado, pelo que tem aceitação social (e note-se que só o teve porque alguém ousou desafiar o estabelecido, as estruturas quase inquebráveis do ilusoriamente certo, do falaciosamente relativo, porque aceite como dogmático), que o certo é o ‘espírito de manada’?

O mundo caminha através da rotura, da tentativa. E tentar, ousar ou inovar significa o quê??
Não significará a assunção de uma essência particularmente nossa? 
Não significará o argumento (em si mesmo) a prova viva, embora contrariável, da atomização do indivíduo?

A minha questão fundamental estende-se além desta problemática.
 Será, ‘seguir a manada’, viver???
Viver é deixar que o presente passe por nós ou é passar por ele??
Não deveria radicar-se no usufruto do momento? Na sensação além do pensamento… ou melhor, na materialização do pensamento em sensações, em momentos, em concreticidades externalizáveis que façam o sujeito sentir?

Viver o presente, enquanto tentativa, é (a meu ver) assumir conscientemente aquilo que somos intrinsecamente… e aquilo que somos intrinsecamente é uma complexidade emaranhada de emoções, medos, sensações, pensamentos...

E é, exactamente, por sermos tudo isso (que não se vê, mas se sente, como o vento), que é possível chegar a juízos de prognose acerca daquilo que o futuro nos reserva.
Não é que o futuro nos reserve, de forma imutável, determinados circunstancialismos. O que acontece é que, aquilo que somos, intrinsecamente (aquele tudo, que para os materialistas, não é nada), é a grande causa dos efeitos que vamos despoletando a cada momento que passa.

(Maria Vaz)





segunda-feira, 10 de junho de 2013

Há momentos em que parece que o tempo pára.
Em que paralisa e acaba por nos paralisar com ele, como se nos estendesse uma mão convidativa rumo à reflexão profunda e nos proporcionasse momentos inspirados acerca da simplicidade subjacente à raiz original das coisas.

Sim, aquela nota de origem, simples. Porque a significância essencial das coisas costuma andar perdida em abordagens mais complexas do que ela própria, como se desaparecesse pelo caminho ou se alterasse com os inúmeros pontos que lhe vão sendo aditados pelas diversas e diversificadas interpretações propagadas.

Todavia, essa essência – ou a verdade – é indescobrível, inalcançável e indesmentível.
A verdade é a idealidade da verdade e, como todas as idealidades absolutas, torna-se incognoscível e imperceptível ao comum dos mortais. Ela pertence ao "mundo das ideias". Pertence ao mundo do transcendental.

A lógica da verdade é a lógica da ordem natural. E a lógica da ordem natural não é atingível por qualquer pessoa que se diga humana.
Ter sensibilidade para compreender os dinâmicos e complexos fenómenos intersubjectivos é, já, algo difícil para o ser humano. Todavia, o acesso à verdade estende-se à compreensão do dinamismo irracionável entre o indivíduo e o colectivo, entre a natureza e o homem (que faz tanto parte dela, quanto ela faz parte dele), entre o corpo e a mente, o sentir e o pensar, o passado e o futuro. 
A verdade é a síntese proveniente do dualismo permanente entre a tese e a antítese. É o perfeito equilíbrio analógico sendo, por isso, supra humana.
Acreditar que ela existe é acreditar na possibilidade de assunção e obtenção do melhor.

Não obstante, descendo ao "mundo sensível"…e tendo a noção de que vivemos num plano “material”, a síntese acaba por se traduzir na criação e na realização...uma vez que a forma assume, socialmente, mais importância do que o conceito (em sentido estrito). 

 A criatividade torna-se, assim, o maior dom do ser humano. É nela que se materializa a razão (que nos ilumina a mente e nos vai avivando o espírito ), rumo ao desprendimento de um senso comum envolto em sombras.

Por tudo isto, acredito que o sonho, enquanto fonte da criação, é o caminho da verdade, enquanto graal a atingir… 

(Maria Vaz)




sábado, 8 de junho de 2013


Há coisas determinadas, no meio da indeterminação de mutabilidades sinuosas… 
As pessoas continuam a viver o seu dualismo egoístico, a projectar o que têm de melhor e de pior nos outros…mas no fundo, sabemos que podemos ver nos outros apenas aquilo que reside em nós. Gerir complexidades é a nossa tarefa “abismal”, num mundo demarcadamente abismado com a superficialidade de um dia-a-dia envolto em nevoeiro. 

O sol existe mas, de facto, poucos conseguem vê-lo. 
Como diria Humberto Eco, “nem todas as verdades são para todos os ouvidos”… 
Eu, muito sinceramente, acredito na felicidade irreflectida daqueles que vêem a realidade com óculos cor-de-rosa… 

Por mais que o Homem caminhe para a perfectividade, e teime em querer atingir “a verdade”, temo que a felicidade radicada numa “realidade” falaciosa é muito melhor do que ter o “pasmo essencial”, que a verdade demonstra.


(Maria Vaz)







Um dia é feito de momentos, sensações, sorrisos, pensamentos, acções…. Todavia, alguns (sem notória racionalidade aparente), caem sobre nós como um devaneio (que relembraremos acompanhado de um suspiro profundo) e vão condensando formas e conceitos aparentemente perdidos na nossa infinita e singular complexidade. 
Têm, em si, a capacidade de nos fazer atingir a nitidez perdida nos meandros da imprecisão dos tempos degenerados, ao mesmo tempo que nos aconchegam a alma, fazendo-nos acreditar que a BELEZA está ao alcance dos nossos (misteriosos) olhos.


(Maria Vaz)



Os dias de chuva são necessários. 
Têm, em si, o poder transcendental de nos fazer evadir, proporcionando-nos a ascensão a um plano de ideias quase perdido no desgaste banal de sequenciados quotidianos coloridos. Transportam-nos para lá do provável, ao mesmo tempo que nos transmitem a percepção (imperfeitamente certeira) de que tudo é relativo, variando de acordo com a peculiaridade da perspectiva adoptada…
Não obstante, não teremos (nós) uma tendência inconscientemente irreprimível e, muitas vezes, negada conscientemente, no sentido de adoptar determinado padrão de “perspectiva”?? Não teremos tendência a “viciar” a realidade (objectiva), à luz de tendências mentais próprias (que a subjectivizam)??

(Maria Vaz)