sexta-feira, 28 de junho de 2013

Aquele minuto sombrio, em que a nitidez pesa
E o realismo exasperado se sobrepõe à beleza do mundo,
Que passa a parecer um vislumbre fantasioso de idealidade.

Aquele segundo fatídico, em que teima vir à tona
Um travo amargo de verdade absurda…
A verdade dicotómica que deixamos transparecer
Através dos actos que não ousamos praticar,
Das palavras sentidas que nos recusamos a proferir,
Dos gestos inegáveis, instintivos e irreprimíveis
Constantes no nosso turbulento modo de agir.

Contudo, desliguemo-nos de dualismos.
Deixemos o realismo arrumado na cave do ser.
Toquemos o idealismo assolador do sótão do sentimento.
Equilibremos o insusceptível.
Relativizemos a verdade.
Façamos o belo (re)florescer,
Como uma Fénix renasce das cinzas.

O importante é o essencial:
Os sorrisos inequívocos, ainda que contidos por um dever ser que não é;
A intencionalidade subjacente às palavras interditas pela razão;
Os gestos que, de tão naturais, postulam as emoções
Adormecidas na intensidade de um sentimento inexpresso, mas expressivo…

Maria Vaz

quinta-feira, 20 de junho de 2013


Perdida
É como me sinto,
Nos dias cinzentos da tua ausência.

Submetida
Ao poder do instinto
No auge do incremento da minha impaciência.

Assim, num ápice alucinante
De murmúrios ténues e trémulos
Entre um passado devastado e um presente edificante
Espero eu, a sintonização do teu sorriso.

(Maria Vaz)







sexta-feira, 14 de junho de 2013

Envolta na subtileza do momento
Perco-me na necessidade de definir o indefinível,
Na veleidade da condensação de um pensamento...

Na insatisfação inebriada e intransmissível,
Envolta na fome de conhecimento...
E na sede do incognoscível.

Iluminada por uma curiosidade insaciável
Que se perde facilmente nos meandros de minúncias
Das pequenas subtilezas cintilantes, insusceptíveis de renúncias…
Porque grandes instigadoras da procura de uma sabedoria inalcançável…

A sabedoria pura -  Indecifrável. 

(Maria Vaz)


quinta-feira, 13 de junho de 2013

A abstracção concreta na ambiguidade de um pensamento;
A catapulta insofismável de um entrave ao sofrimento;
A dualidade inenarrável entre o ser e o nada;
A exteriorização surrealista de uma ilusória jornada.

O inenarrável por detrás de palavras desgastadas,
Banais, vulgares…deterioradas;
Como podem, as palavras, dizer tudo
E, ao mesmo tempo, não dizerem nada?

A prolixidade insintetizável da sensibilidade humana,
Perante os momentos calmamente electrizantes que nos consomem
A alma, o espírito, a chama…
Em prol daquela densidade, que habita aqueles que dormem…

A vicissitude residente nas almas alienadas;
O abismo existencial dos que caminham em paralelo,
Unicamente por não terem as suas substâncias afirmadas
Neste louco mundo, em que tamanhas contrariedades vivem em constante duelo.

 (Maria Vaz)




quarta-feira, 12 de junho de 2013

Perdida nos emaranhados do sentir,
Na confusão de um querer que extravasa o finito
Vivendo a complicação desligada que se esvai
Na petrificação dos medos… em calcário ou arenito;

Com uma passividade universalizada
Por um olhar que tudo decompõe,
Que vagueia pelas coisas como uma ave alada
Pelo amor que a analise impõe.

Atenta aos pequenos nadas
Que, juntos, são quase tudo
Vou observando, muito subjectivamente:
A natureza, a vida, o meio, o sentido… o conteúdo!

A mineralização do ser na forma
A sedimentação do eu na ideia
A erosão de um ego além da norma
A criatividade sensorial que por aí vagueia

E, assim, atenta a tudo,
Vai deambulando o meu pensamento, confuso,
Além da linha do horizonte…se possível.

Porque não viver entre a realidade e o sonho?

Nada me parece tão antagonicamente credível
E tão atormentantemente medonho! 

(Maria Vaz)


terça-feira, 11 de junho de 2013

A vida é um paradoxo insublimável.
O presente é a constituenda tentativa (diluidamente inacabada) de resolução daquele paradoxo…daquele eterno mistério original.
Estamos condenados a andar perdidos na ambiguidade de um tempo que a todos restringe, que a todos ordena.

O facto de sermos o que somos é, já de si, uma contrariedade insofismável relativamente às perspectivas que encaram o homem, meramente, como uma obra em execução.
Não quero dizer, com isto, que não acredito que o seja. Acaba por sê-lo. Mas a execução da 'obra' parte, sempre, da existência de uma forte base, "ab initio".
Ver o Homem desprovido de qualquer essência inata, seria reduzi-lo a um ‘nada’ que nasce e que se vai alimentando unicamente da assimilação do meio em que se integra. 
Se assim fosse, nada lhe pertenceria. Ele seria somente pedaços de tudo e todos.
Seria uma esponja frágil, sujeita a perder-se na complexidade intersubjectiva com que se relaciona quotidianamente. 
Seria mais um. Um átomo que nunca se autonomiza da molécula. Uma partícula sem vontade própria. Um seguidor inquestionável de uma ‘manada’ facilmente influenciada ou manipulável por alguém que se autonomize.

Se é verdade que me parece que a influência do meio é indubitável (e os estudos psicológicos corroboram-no), não me parece menos verdadeira a existência de um essencialismo caracterizador de cada ser humano. 
Porque o ser humano é insusceptível de padronizações, ainda que a analogia seja a principal ‘arma’ na obtenção de verdades particularizadas, com base em padrões naturais. 
Sim, a natureza tem padrões indesmentíveis, que a física cada vez mais confirma e a que a filosofia, desde sempre, esteve atenta…

Dito isto, como me poderá dizer uma sociedade conformista que facilmente se deixa levar pelo já criado, pelo que tem aceitação social (e note-se que só o teve porque alguém ousou desafiar o estabelecido, as estruturas quase inquebráveis do ilusoriamente certo, do falaciosamente relativo, porque aceite como dogmático), que o certo é o ‘espírito de manada’?

O mundo caminha através da rotura, da tentativa. E tentar, ousar ou inovar significa o quê??
Não significará a assunção de uma essência particularmente nossa? 
Não significará o argumento (em si mesmo) a prova viva, embora contrariável, da atomização do indivíduo?

A minha questão fundamental estende-se além desta problemática.
 Será, ‘seguir a manada’, viver???
Viver é deixar que o presente passe por nós ou é passar por ele??
Não deveria radicar-se no usufruto do momento? Na sensação além do pensamento… ou melhor, na materialização do pensamento em sensações, em momentos, em concreticidades externalizáveis que façam o sujeito sentir?

Viver o presente, enquanto tentativa, é (a meu ver) assumir conscientemente aquilo que somos intrinsecamente… e aquilo que somos intrinsecamente é uma complexidade emaranhada de emoções, medos, sensações, pensamentos...

E é, exactamente, por sermos tudo isso (que não se vê, mas se sente, como o vento), que é possível chegar a juízos de prognose acerca daquilo que o futuro nos reserva.
Não é que o futuro nos reserve, de forma imutável, determinados circunstancialismos. O que acontece é que, aquilo que somos, intrinsecamente (aquele tudo, que para os materialistas, não é nada), é a grande causa dos efeitos que vamos despoletando a cada momento que passa.

(Maria Vaz)





segunda-feira, 10 de junho de 2013

Há momentos em que parece que o tempo pára.
Em que paralisa e acaba por nos paralisar com ele, como se nos estendesse uma mão convidativa rumo à reflexão profunda e nos proporcionasse momentos inspirados acerca da simplicidade subjacente à raiz original das coisas.

Sim, aquela nota de origem, simples. Porque a significância essencial das coisas costuma andar perdida em abordagens mais complexas do que ela própria, como se desaparecesse pelo caminho ou se alterasse com os inúmeros pontos que lhe vão sendo aditados pelas diversas e diversificadas interpretações propagadas.

Todavia, essa essência – ou a verdade – é indescobrível, inalcançável e indesmentível.
A verdade é a idealidade da verdade e, como todas as idealidades absolutas, torna-se incognoscível e imperceptível ao comum dos mortais. Ela pertence ao "mundo das ideias". Pertence ao mundo do transcendental.

A lógica da verdade é a lógica da ordem natural. E a lógica da ordem natural não é atingível por qualquer pessoa que se diga humana.
Ter sensibilidade para compreender os dinâmicos e complexos fenómenos intersubjectivos é, já, algo difícil para o ser humano. Todavia, o acesso à verdade estende-se à compreensão do dinamismo irracionável entre o indivíduo e o colectivo, entre a natureza e o homem (que faz tanto parte dela, quanto ela faz parte dele), entre o corpo e a mente, o sentir e o pensar, o passado e o futuro. 
A verdade é a síntese proveniente do dualismo permanente entre a tese e a antítese. É o perfeito equilíbrio analógico sendo, por isso, supra humana.
Acreditar que ela existe é acreditar na possibilidade de assunção e obtenção do melhor.

Não obstante, descendo ao "mundo sensível"…e tendo a noção de que vivemos num plano “material”, a síntese acaba por se traduzir na criação e na realização...uma vez que a forma assume, socialmente, mais importância do que o conceito (em sentido estrito). 

 A criatividade torna-se, assim, o maior dom do ser humano. É nela que se materializa a razão (que nos ilumina a mente e nos vai avivando o espírito ), rumo ao desprendimento de um senso comum envolto em sombras.

Por tudo isto, acredito que o sonho, enquanto fonte da criação, é o caminho da verdade, enquanto graal a atingir… 

(Maria Vaz)




sábado, 8 de junho de 2013


Há coisas determinadas, no meio da indeterminação de mutabilidades sinuosas… 
As pessoas continuam a viver o seu dualismo egoístico, a projectar o que têm de melhor e de pior nos outros…mas no fundo, sabemos que podemos ver nos outros apenas aquilo que reside em nós. Gerir complexidades é a nossa tarefa “abismal”, num mundo demarcadamente abismado com a superficialidade de um dia-a-dia envolto em nevoeiro. 

O sol existe mas, de facto, poucos conseguem vê-lo. 
Como diria Humberto Eco, “nem todas as verdades são para todos os ouvidos”… 
Eu, muito sinceramente, acredito na felicidade irreflectida daqueles que vêem a realidade com óculos cor-de-rosa… 

Por mais que o Homem caminhe para a perfectividade, e teime em querer atingir “a verdade”, temo que a felicidade radicada numa “realidade” falaciosa é muito melhor do que ter o “pasmo essencial”, que a verdade demonstra.


(Maria Vaz)







Um dia é feito de momentos, sensações, sorrisos, pensamentos, acções…. Todavia, alguns (sem notória racionalidade aparente), caem sobre nós como um devaneio (que relembraremos acompanhado de um suspiro profundo) e vão condensando formas e conceitos aparentemente perdidos na nossa infinita e singular complexidade. 
Têm, em si, a capacidade de nos fazer atingir a nitidez perdida nos meandros da imprecisão dos tempos degenerados, ao mesmo tempo que nos aconchegam a alma, fazendo-nos acreditar que a BELEZA está ao alcance dos nossos (misteriosos) olhos.


(Maria Vaz)



Os dias de chuva são necessários. 
Têm, em si, o poder transcendental de nos fazer evadir, proporcionando-nos a ascensão a um plano de ideias quase perdido no desgaste banal de sequenciados quotidianos coloridos. Transportam-nos para lá do provável, ao mesmo tempo que nos transmitem a percepção (imperfeitamente certeira) de que tudo é relativo, variando de acordo com a peculiaridade da perspectiva adoptada…
Não obstante, não teremos (nós) uma tendência inconscientemente irreprimível e, muitas vezes, negada conscientemente, no sentido de adoptar determinado padrão de “perspectiva”?? Não teremos tendência a “viciar” a realidade (objectiva), à luz de tendências mentais próprias (que a subjectivizam)??

(Maria Vaz)