sábado, 23 de novembro de 2013

Vivemos numa sociedade em que a ridicularidade do 'dever ser' prevalece sobre a verdade (como se fossemos todos criancinhas e tivéssemos de eufemizar a vida, a morte, a realidade, a vontade, o que somos e aparência do que somos, o desejo, o amor e o ódio), em que o sentimento e o ser intrínsecos são ocultados pela necessidade constante de dar nas vistas, por parte de um ou outro ser desprovido de luz própria. Tudo numa desvirtuada espécie de cultura de aparências.

As pessoas esquecem-se que não adianta quererem parecer X, Y ou Z, porque nunca serão assim. Cada um é o que é. Dificilmente alguém mudará isso. Não adianta ostentarem o bem A, B ou C, porque o verbo 'ter' fica totalmente submergido pelo ser, quando o culto do ego não esteja envolvido.

A vida muda tão rapidamente como a noite se torna dia. 
As larvas costumam tornar-se borboletas. 
As borboletas, ainda que não queiram, morrem. 
No final, a vida vai ser o quê? 
O fingimento de enaltecimento de um ego mórbido e ostensivo?

De que nos adianta sofrer por quem não nos entende? 
De que nos vale implicar com quem não merece os nossos argumentos? 
De que nos vale equacionar o belo no meio de um caos obscurecido? 
De que nos vale dizer que sim, sorrir, dizer que a amizade é eterna, quando, muitas vezes, a fraternidade que fica é a mesma que nutrimos por uma paisagem ou por uma pedra? 
Confesso-vos que gosto muito mais de algumas paisagens ou pedras do que de alguns seres que andam por aí. 

A natureza humana une-nos por fios invisíveis, que a nossa mente vai criando. A vida é uma constante, rodeada de variáveis que caminham, certamente, para o encontro de afinidades reais, no meio de tanta mutabilidade. É uma metamorfose que nunca pára, um correr de ciclos, que vão desde a primavera ao inverno da alma. 

Sem dúvida que, para chegarmos à concentrada sabedoria saturnina (que só o Inverno da alma possibilita), teremos de passar pela inevitável queda das folhas caducas (que é a principal lição metafórica que o Outono nos vai ensinando). 
Há que deixar as folhas caírem, voarem, seguirem o seu destino...ao mesmo tempo que vivemos a transformação, que a mudança de estação faz imperar, crescendo. Depois da passagem da estação perceberemos que o que é perene sempre existiu, ainda que não tenhamos reparado nisso antes. A percepção da perenidade é como a descoberta dos pequenos essenciais da vida - demorada. Não é para todos. A maioria de todos anda entretida com a descoberta e a vivência da Primavera e do Verão da alma. E a idade formal é só mesmo isso - uma formalidade restritiva do ser e discriminativa do saber - mais uma ridicularidade de uma sociedade em que a aparência está entranhada.

Quem caminha pelas sinuosidades cíclicas da vida, confiante daquilo que é (e nos talentos que possui): jamais será alguém que vive satisfatoriamente com adaptabilidades sociais; jamais será alguém que se contenta com pouco, com migalhas de particularidades afectuosas ou com resquícios de efemeridades ultra desvaliosas.

Quem vive de essencialidades quer muito mais do que folhas caducas. 
Quer, muito além, de folhas perenes. 
Quer encontrar as raízes daquilo que é! 
Quer ver o mundo sem restrições! 
Quer que a vida seja semelhante a um voo de condor: 
elevado, intenso mas estável, tranquilamente delirante, transcendente.

Desta vida só quero a verdade,
o resto são ilusões passageiras que o nosso ego inventa. 
E a vida é muito mais do que uma mera circunstância. 
No final, o ritmo trará a vivificação de uma sintonia 
que a vibração energética não deixará negar. 
É o tempo, só o tempo, 
que nos traz a clareza...
no meio de uma ou outra nebulosidade, 
daquelas que Neptuno tanto gosta de propiciar. 

Maria Vaz




terça-feira, 12 de novembro de 2013

Vejo-te em pequenas minudências, detalhes e pormenores.
Escuto-te no silêncio ensurdecedor da consciência.
Sinto-te no vazio, aparente, que a ausência de luz esconde.
Antevejo-te nas coincidências que a magia da vida faz acontecer.
Vivo-te na intensidade das emoções inexplicáveis que tocam o coração.
Intuo-te na solidão falaciosa da ausência de companhia.
Capto-te em imagens, nomes, números, símbolos, conexões.
Reflicto-te com base em livros ancestrais:
Alegorias que atravessaram o tempo; histórias; metáforas;
Filosofias complexas e baratas; romantizações do mundo com
resquícios de verdades essenciais.

A mente humana complica-te:
Não te vê, escuta, sente, antevê, intui, capta ou reflecte.
Desacredita-te porque quer outra coisa, que não a verdade.
(A verdade dói, não é?
E o Ego é sempre o Ego: aquele ímpeto de vaidade que nos assola
E nos cega; que nos agiganta e nos esmaga; nos dignifica e desumaniza).

Esquecemos-nos da leveza da essência, da natureza, do intangível.
Perdemos-nos em complicações aparentemente descomplicadas.
A razão excessiva torna-nos escravos de automatismos de relativização
axiológica que andam de mãos dadas com o 'desvalor' essencial,
a falta de personalidade, de brilho interior, de virtuosidade nos gestos e nas palavras.
A neutralidade do raciocínio lógico
faz-nos enveredar pelas caminhos sinuosos de um rumo sem iluminação.

E, no entanto, a verdade está em tudo.
Em toda a parte.
Tatuada em momentos, símbolos, auras, reacções, tendências.
E, eu, costumo perguntar-me:
Não serão esses pedaços, iluminadores de verdade,
demonstradores de uma ordem no caos?
E, como em tudo, não estará essa ordem dentro de nós?
Não aflorará do silêncio aparente onde nos gritam as palavras?

Maria Vaz



terça-feira, 5 de novembro de 2013

Que o amor seja o ideal a atingir!
Que a paixão seja o ópio do tempo!
Que os olhos sejam muito mais do que espelhos da alma!
Que o corpo seja um templo a um Deus qualquer!

Que a vida seja uma descoberta contínua!
Que o sonho nos invada, sempre!
Que as lágrimas nos fortaleçam!
Que o Ser nos eternize...

Que a efemeridade sirva para que percebamos o eterno!
Que o mundo nos faça evadir, ainda que pela banalidade!
Que a alegria venha sempre das pequenas coisas.
São elas que nos caracterizam
Até quando não sabemos o que somos...
E Ser é não saber o que se é.
Saber o que se é...
é viver a ilusão de um ideal que não chega!
Ser o que somos é deixarmos-nos ir
por entre as vielas entupidas pelos trânsitos do Destino!

Que a vida nos dê a ávida sensação,
que supera tudo o resto.
Que nos faça sentir, além de nós, os outros!

Que o sonho nos faça chegar ao impossível,
Aos emaranhados de almas alheias!
Que a mente nos faça caminhar para a perfeição!
E que a natureza nos renove a cada instante...!

Isso e aquilo que as palavras não conseguem dizer...
É o que desejo (desta) vida!

Maria Vaz