domingo, 26 de outubro de 2014

O cerne da questão nem é 'saber quem poderia amar a pessoa que escondes', mas antes a percepção de que tu é que tens que amar a pessoa que, por medo, escondes.
O medo é apenas uma limitação, tantas vezes inconsciente, que a mente gosta de criar com base no conhecido. E o problema é que o conhecido nem sempre é o 'melhor'... e o 'melhor' é uma mera subjetividade concreta e insusceptível de padronizações.
O amor não é personalisticamente dependente: é energia. Se fores amor, os outros reconhecerão essa 'beleza' anímica.
A visão tradicional de dependência remete as pessoas, também por medo, à perda da individualidade anímico-distintiva que gerou o surgimento do 'sentido'.


quinta-feira, 23 de outubro de 2014

As pessoas que vivem de interpretações literais e de aparências não questionam os empirismos. Se alguém lhes diz que tem determinada característica vão interpretar os prós e contras da característica, mas jamais ousam pensar na sua veracidade (ainda que subjectiva) e dizer que aquilo é a maior barbaridade que já ouviram. 
Pois é, às vezes, definimo-nos mal...porque estamos sempre à procura de nós. Não somos nada daquelas palavras banalizadas que deixamos proferir no fluxo de energia que, mal ou bem, se desenvolve nas relações inter-pessoais: deixamo-nos impregnar de energias alheias ao sentir os outros sem limitações.  A definição do 'eu', além de ser uma limitação própria, abre caminhos a limitações e rótolos externos totalmente inverosímeis. Quem nunca se deixou levar, uma vez ou outra, na poluição sonora do 'achismo'?
Enfim, nunca tive paciência para quem confunde prenúncios de chuva com neblina matinal. 


quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Tenho-me inquietantemente questionado acerca da origem da vontade. Repetidas vezes tomamos o dúbio como óbvio e remetemos as respostas para a esfera da razão: uma razão pseudo iluminada que supostamente nos guia. Mas confesso que isso nunca me caiu bem. Não é que não concorde que a origem da vontade se encontre na razão. Não concordo é com a linearidade da aceitação nem com os olhares admiradamente espantados com a minha inquietação.
Num primeiro momento, julguei que a origem era a emoção. Afinal, todo o impulso inconsciente brota do que de mais misterioso há na alma humana: a sensibilidade emotiva. Depois, sei lá se por razão ou intuição, percebi que a origem da vontade é moldada pela consciência daquilo que queremos e, nesse sentido, seria uma espécie de emoção racionalizada pelo conhecido. 
Todavia, a origem ou o fundamento encontram-se num plano anterior à consciência: num plano de inesgotáveis possibilidades, de desejos (que podem até ser reprimidos pela 'consciência' que se adapta às convenções sociais), de caos. E isso lá me levou à conclusão de que a emoção receptiva, aliada à criatividade activa, originam uma razão desprendida que torna consciente o inconsciente, inovando e libertando o sujeito dos medos que o aprisionam ao conhecido. 
Assim, a origem da vontade precorre o caminho da receptividade emotiva inconsciente, que se cruza com a actividade criativa do sujeito, com base num 'modus operandi' racionalmente desprendido e inovador, liberto dos rígidos dictames sociais de 'dever ser'. Resumindo: a consciência da vontade tem origem na esfera dessa razão não meramente lógica, mas também intuitiva. Mas a mais pura origem, enquanto 'marco' nascente (ainda que inconsciente), encontra-se nas águas misteriosamente profundas das emoções humanas. 
* Claro está que os ditos racionalistas pseudo iluminados (e certamente infelizes) discordarão e dirão que o que importa é a lógica, a razão em sentido lato e desprovido de significâncias etimológicas, com base em paupérrimos juízos de prognose (porque meramente lógicos e agarrados aos medos que não deixam aflorar a intuição ou uma racionalidade inovadoramente superior), dizendo que tudo isto é coisa de 'loucos', com base na ideia de que só um louco se entregaria ao caos dionisíaco da natureza humana. 
Enfim, cada um sabe de si, haja liberdade (!) ... mas não há plenitude sem libertação. E, no fundo, depois da tomada de consciência da vontade (que é disso que falamos)... sobram duas saídas: uma fuga de negação ou a tal inovação criadora. E a coragem é a 'necessidade' que se interpõe. Só se atinge o equilíbrio da unicidade, que aniquila o falacioso dualismo da razão lógica, com coragem. Afinal, as convenções são apenas convenções (felizmente questionáveis e alteráveis) e o que os outros pensam são só isso mesmo: opiniões felizmente de escassa significância. Só é feliz quem ousa superar-se. E viva a loucura se estar vivo e decidir a vida em vez de a deixar passar com base em juízos externos ou internos de adequação. Independentemente da origem da vontade, o indivíduo é originalmente único: não formatemos essa originalidade. 



Falar para quê? Calados já dizemos tanto.
Às vezes, falar é poluição sonora.



segunda-feira, 20 de outubro de 2014

A amizade é uma religião: digo-o na certeza da minha concreticidade e sem pretensões egoísticas de abstracção. Digo-o porque aqueles que passaram pela minha vida deixaram sempre muito de si. Muito de bom e muito de mau. Mas sempre muito. Deixaram lições e uma espécie de sabedoria que a ilusão do tempo não apaga.
Hoje, quando sinto os bolsos cheios de utopias, os olhos a transbordar de sonhos e o coração ávido de essencialismos... penso na lógica 'economicista' aplicada à vida real; relativizo as circunstâncias; leio o caderninho que a Daniela me deu para começar a mudar o mundo; e...sinto-me renascida do que era e confiante naquilo que sou. O verbo 'ser' não precisa de transitoriedades limitadoras...mas sofre, sem dúvida, transformações.


"Liberdade para dentro da cabeça"

Ricardo Reis escreveu, "cumpramos o que somos", pressupondo que somos tudo. Como a maioria de nós só sabe o que é com base na escassa consciência que tem de si próprio, esquecendo o todo em prol da 'parte'... eu ousaria dizer: tenhamos loucura de aumentar o que somos. Só assim a existência atribui valor à essência, que a precede. Só assim nos vemos livres de determinismos. Só assim deixamos de nos limitar. Se o universo está em nós, para quê reduzirmo-nos a uma nebulosa?