sábado, 27 de dezembro de 2014

 O 'conhecimento' meramente intelecto-racional ou empírico-intelectualizado não constitui (na minha opinião) a base das aprendizagens mais difíceis. Até porque a racionalização do conhecido faz com que tenhamos sempre uma perspectiva impositivamente dual, na medida em que a razão dá sempre azo a uma série de prós e contras, originando inequivocamente uma certa relativização e subtração de 'sentido'. E quando aponto isto não quero, de maneira nenhuma, tocar a moralidade de qualquer sentido, em termos convencionais ou de 'dever ser'. Pelo contrário. Acho que o homem deve aproveitar a aprendizagem cognoscitiva para aumentar a consciência de si próprio (e das suas, natas ou inatas, tendências comportamentais) e assim, após as experiências que o 'ser com os outros' lhe proporcionam, ser capaz de auto-análise...permitindo-se não apenas a aumentar a consciência como também, devido a isso, aumentar a sua liberdade de escolha (but free choice is not free will).
 Enfim, acho que só assim o ser de 'atomiza' em termos essenciais do meio que o rodeia. E o meio tem sempre aquelas ideias colectivas de 'dever ser', de 'sucesso', de 'padrão de vida familiar', de 'status': ideias que podem ser objetivos de manadas colectivas e sonhos alimentados pelos comportamentos de massas. Para mim essas imposições são vazias de conteúdo. Cada um, se não sabe, deveria saber que é melhor para si sem condicionamentos externos.
O "aprender a aprender" não se dirige ao conhecimento que vem nos livros (e que está ao alcance, se não dos mais inteligentes, dos mais esforçados), mas antes daquele conhecimento que a vida teima em nos ensinar pela via da experiência porque, ainda que a racionalizemos para a relativizar, com base na auto-análise conseguimos atingir a 'consciência do eu' (porque inconscientemente acredito que somos todos um 'tudo' em potencial). Só com base nessa consciência melhoramos o que somos e nos permitimos 'escolher' o melhor. E o melhor é sempre subjetivo. E por mais estranha que seja essa subjetividade, deve ser um campo afastado de moralismos, paternalismos e imposições externas, sob pena de deixar de ser uma manifestação da individualidade do 'eu' para se tornar numa mera adequação às convenções sociais coletivas, meramente formais. E o que importa, sem que daí advenha mal ao mundo, é a felicidade.



A natureza humana é quase desconhecida. Nós somos um mistério para nós mesmos! Mas isso não nos deve remeter a fugas de contentamento ou de 'encapotamento' da profundidade do 'eu': nada é linear. Então é mesmo bom aceitar o desconhecido, racionalizar apenas para perceber se é bom ou não (e o bom e o mau são conceitos pura e inquietantemente subjetivos). E nesse sentido, ser feliz é que é o 'certo'!! O medo é pura auto-limitação por não se saber saber o que vem a seguir, a necessidade saída de uma zona de conforto que sufoca e estagna. O medo está sempre ligado à inibição, à não atomização do 'eu' do consensualmente aceite e à intriga e à dúvida daquilo que hipoteticamente seria 'melhor'. 
A curiosidade é, por isso mesmo, o início do caminho enquanto percepção de que nos autolimitamos com medo de sonhar. E, muitas vezes, as pessoas sonham mas têm até medo de admitir a 'querida' concreticidade (sonhada) com base no medo de falhar ou em legítimos juízos consequencialistas. Por tudo isso, sou apologista de libertações internas e externas. A felicidade começa na sinceridade: não relativamente a terceiros, mas sobretudo, relativamente a nós próprios (no mais íntimo daquilo que somos)... porque a felicidade vem mesmo de dentro. E haja curiosidade, coragem e renovação da capacidade de sonhar. 
Sem isso, a vida tornar-se-ia irritantemente previsível, certa, determinísticamente apreensível, aborrecida: uma mera praxis existencial. 



segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Os pragmáticos despedem-se de forma desmistificadamente indolor. Os idealistas colocam todo o seu sentimento no abraço que toca o abismo da ausência. Não é a dependência ou qualquer idealização de amor (ou do seu sentido). É tão somente a gratidão ou, antes de tudo, o egoismo auto-protector ante a ausência forçada.
A vida é mesmo conciliadora de paradoxos e toda a chegada implica uma partida. E deixando idealismos de lado, toda a partida nos enriquece e nos fortalece por dentro. Não perdemos nada: continuamos com o mesmo olhar sobre a realidade, com a mesma perspectiva... mas os horizontes alargam-se tanto que alcançam um ponto sem retorno. E o limite não é céu nenhum: é o brilho incandescente das estrelas que os nossos olhos, também impregnados de luz, vislumbram no meio das trevas.