sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Não sei se foram os olhos ou a inadvertência da razão. Foi o brilho que reconheci sem, aparentemente, conhecer. Foram as boas lembranças que a memória reavivou. Foi o que ainda não sei, mas que descobrirei, porque a realidade cuida de se ampliar à medida em que nos deixamos embeber em nós. Somos a resposta, no singular. Por mais que o passado fascine, somos uma eterna história por escrever. Esquecer-me-ei de ti, como de todos, mas rápido nos (re)encontraremos. Os que se querem bem estão destinados a um reencontro, por mais que demore. No fundo, somos eternas pedras em lapidação, que só se aquietam com a mesma tonalidade musical. E isso só é (re)cognoscível no momento em que a exteriorização, biunivocamente perceptível, ocorre. Talvez seja por isso que dou as mãos à transparência e que tento fugir das dissonâncias: um si bemol será sempre um si bemol...e meio tom pode colocar em cheque a melodia harmoniosa que se quer.

Alma Salgueiro

sábado, 17 de outubro de 2015

Anoiteceu como todos os dias, mas viram ali o que sempre lhes fora invisível: o miscigenar das cores quentes com o azul frio, em que o alaranjado se dilui, deixando laivos rosa sobre a linha do horizonte. Naquele dia, como em tantos outros, a beleza saía deles pelos olhos, tropeçando em sorrisos equilibrados, tímidos, pelo medo de dizer o indizível, nessas horas em que a razão complica e atormenta a simplicidade das evidências.
Interpretando os silêncios dançantes entre os movimentos suaves, serenos, ansiosos ante a compulsão convergente dos corpos; entre os brilhos que os olhares refletiam; entre a pele dos dedos, que se enlaçaram sem perceberem. O que quer que tenha sido aquilo, qual milagre, sintonia física e anímica, grito unívoco, pulsão descontraída, desapossada...palavra não inventada, eles souberam que era amor. E que o amor estava neles. Sabiam que não necessitavam um do outro, que seguiriam com carinho. Sabiam, no fundo, que era melhor deixarem de se ver: o amor amplificado, viciado, leva à paixão. E eles, sem saber, sentiam que seria um ponto sem retorno. Foi por isso que se contentaram com a eternidade daquele pôr do sol.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Brisa
Aroma
Beleza
Redoma
Surpresa
Paixão
Natureza
Alucinação
Tudo vida:
matéria-prima da sensação.
E a razão?
Essa dorme divertida.
Não necessita de afirmação.
Pode ficar bem escondida
e soltar-se na introversão.
Sabem que mais?
Deixemos a existência estendida
ao sol da imaginação.
Ela não será esquecida
e não atormentará o coração.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Irrompe no tempo
o descalabro incompreensível
dos olhares que trocamos.
Doem as palavras soltas
e corroem as prendidas.
O amor, cheio de graciosidade,
torna as amarguras esquecidas:
memórias sem validade.
E que me diga o tempo o indizível,
em verdades impiedosas.
As palavras, ante o infinito, são desastrosas.
O horizonte amplia placidamente o intraduzível
e, no absoluto, as almas vagueiam, caridosas.