quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

A loucura
cura
a razão doente.

Maria Vaz


Mais do que água e moléculas de carbono
ou do que títulos e experiências no caminho do 'status',
que talvez despreze.
Mais do que as certezas e seguranças
e do que as linhas retas
encobertas dos 'moralismos' que rejeita.
Mais do que a ordem,
de que vai fugindo pela liberdade de se pertencer.
Mais do que impulsos eléctricos entre sinapses
que geram mais intuições do que silogismos.
Ela acredita que a liberdade está no 'caos' de 'ser'
e só quer o que a faz sentir em sintonia
com o que transborda invisivelmente,
por dentro,
em tons calma e misteriosamente
coloridos de intensidade.

Alma Salgueiro

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Biologicamente, ouvimos desde os primórdios escolares que somos seres que nascem para se reproduzir e morrer, não obstante a existência de uma história pelo meio.

Se formos pelo 'empirismo científico', a morte é uma perda em que se degenera a matéria e, com ela, supostamente tudo o que somos e que nos distingue de forma notória.

Psicologicamente, ouvimos o debate que se trava com a sociologia e se discute se tendemos a um determinado tipo de personalidade inata ou se não passamos de uma amálgama de assimilações exógenas dos meios em que vamos deambulando.

Animicamente, havendo inúmeros estudos acerca daquilo que seja a consciência, a verdade é que ninguém sabe muito bem o que a gera e como se expande, tal como nunca se soube muito bem se a verdade é subjetiva ou objetiva (o problema da fenomenologia do conhecimento).

Ultimamente têm falecido muitas pessoas famosas - artistas - e, em boa verdade, um artista é sempre alguém que se distingue ou que traz algo carismático e único à vida, que lhe confere brilho e individuação do meio. São pessoas que, mesmo sem querer, despertam algo nos outros, na vida em sociedade, seja pela instigação da alegria, da transmutação da melancolia em arte ou pela luta por uma evolução social (seja ela mais focada na igualdade, na liberdade ou na dignidade humana). A obra dessas pessoas nunca morre, porque transcende a matéria.


Resumindo: o que somos também não a transcende? Será que nos reduzimos a uma atividade cerebral em que, mecanicamente, um 'coração' sem sentimentos bombeia o sangue entre artérias e veias como se a vida se resumisse a existir por existir, entregue a um conjunto de acasos? Será que o que anima o meu corpo são apenas impulsos elétricos que ativam e ligam sinapses que me 'decidem'? Ou será que alguém sabe como nasce a 'vontade' de algo, essa metafísica que precede qualquer a ação? E não será que a liberdade, esse conceito tão amplo e denso e sempre por esgotar, envolve a metafísica com a razão (que também nos distingue) e pode contrariar qualquer tendência endógena ou exógena, funcionando em uma certa linguagem do 'senso comum' como uma espécie de consciência que nos liberta o 'espírito' das tendências mais primitivas ou animalescas que residem no nosso inconsciente (chamem-lhe isso ou ID, se quiserem)?

Ficam várias questões: será que fica apenas a obra material que o espírito concretizou na matéria ou naquilo que os cabalistas apelidam de 'reino de Malkut'? Ou será que a nossa energia e o nosso magnetismo pessoal sobrevivem à transformação da matéria e vivem a relatividade de um tempo/espaço indo ao encontro, não dos velhos princípios da física teórica, mas da já não tão recente 'física quântica'?
Talvez esteja na hora - independentemente de qualquer plano unívoco dos limites das crenças que criamos ou que nos são incutidas socialmente (como os dogmatismos religiosos) -, de se quebrarem paradigmas falsificados mas entranhados. E que se inicie um novo diálogo acerca do 'espírito', do 'ser', da 'metafísica da vontade' e das 'influências restritivas ou expansivas do meio', da epistemologia, do perecimento do 'método empírico' e da urgente redefinição daquilo que entendemos por 'essencialismo' e por 'existencialismo'.

*Inquietações matinais de alguém que acha que é tempo de se expandir a mente. 






 smi
le emoticon

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Façam-me um favor:
Não calem o sorriso
pelo 'dever ser' obsoleto
de um bom humor contido.
E que o inconveniente
seja a tentativa persistente
de um ser nunca oprimido.


Uma amiga disse-me: "pensei que as nossas almas fossem desassossegadas".
Eu respondi:

Claro que são (criativamente) desassossegadas. Mas há desassossegos e desassossegos. Desassossega-me a incompreensão da totalidade do universo, a tentativa de percepção da origem das coisas ou o preconceito, que é das mais vis formas de injustiça. Desassossegam-me a fenomenologia das emoções e as percepções acaloradas ou repentinas que a razão esconde. Desassossegam-me positivamente as coisas boas da vida. Desassossega-me a intensidade de pequenos nadas sentidos, cuja veracidade não consigo passar para o papel...ou os abraços interditos pelas distâncias supra territoriais. Mas esse desassossego não desassossega negativamente quem quer que seja: não tem pretensões de envenenamento, controlo ou diminuição do outro.
Ser sem restrições pode ser em prol do melhor que a vida tem para nos oferecer, seja isso possível ou utopia para as mentes resignadas a normalidades tediosas. O incrível, o inusitado ou a luz além da nebulosidade do quotidiano são uma espécie de tempestade de rosas análoga à 'calmaria'.
A 'calmaria' é tudo menos anulação ontológica ou existencial: sejamos almas desassossegadamente felizes na calmaria tolerante que lhes permita brilhar a luz que trazem escondida, talvez por medo.
E deixemos brilhar desassossegadamente a 'estranheza boa' que trazemos por dentro. ;)




sábado, 2 de janeiro de 2016

A tranquilidade inundou-lhe os sentidos 
Ante o azul sem fim.
A brisa trazia-lhe liberdade 
Enquanto oscilava entre as ondas do cabelo
E o pensamento voava mais do que os pássaros deslumbrantes que estavam por ali.
O sol estava no zénite 
E a natureza batia-lhe no rosto com o infinito,
Como o alvorecer de claridade,
Como um doce afago de criança. 

Maria vaz